SER MELHOR… OU SER MELHOR QUE OS OUTROS?

 


Na gestão autárquica em Cascais, quer com Carlos Carreiras quer agora com Nuno Piteira, o foco está sempre em ser melhor que os outros, ao ponto de se torrar dinheiros públicos em coisas como Cascais Capital Europeia da Democracia.

Confesso que esta lógica supremacista, esta mania da superioridade de uns indivíduos em relação a outros, tão na moda em Portugal e por esse mundo fora, em Cascais ganhou estatuto de prioridade e é um fato que me incomoda.

Em Cascais somos sempre os maiores, os melhores, os mais desenvolvidos, escolhendo em cada momento com quem nos comparamos para confirmar que o somos.

Não resisto a relembrar um trauma que vivi. Quando fui autarca em Cascais entre 1986 e 1993, e porque quando casei comprei casa em Oeiras, havia algo que me irritava solenemente quando passava de Cascais para Oeiras, e em Oeiras a limpeza urbana e os espaços verdes estavam muito melhores do que em Cascais. Enquanto fui autarca nunca consegui alterar esta situação. Quis o destino que com a vitória de António Capucho este me tivesse convidado para integrar a administração da Tratolixo em finais de 2002 e posteriormente, em 2005 me incumbisse a tarefa de liderar a criação e implementação da Cascais Ambiente.

Nas conversas mantidas com os colaboradores desta nova empresa, sempre pedi que se tivesse uma especial atenção nas zonas de fronteira com os municípios de Sintra e de Oeiras, apelando para que se desenvolvesse todos os esforços para garantir que fosse notório que a limpeza urbana, a recolha de RSU, a lavagem e varredura das estradas, estivesse irrepreensível do lado de Cascais.

Com a então EMAC, hoje Cascais Ambiente, isso foi bem visível logo após poucos meses de atividade da empresa.

Em Sintra, a limpeza urbana e a recolha de resíduos nunca funcionaram bem e em Oeiras hoje é uma sombra do que já foi nos anos noventa.

Moral da história, podemos dizer que Cascais tem hoje, de longe, o melhor serviço público de limpeza urbana e recolha de resíduos quando comparado com os vizinhos Oeiras e Sintra ou mesmo Lisboa.

Mas já atingiu o nível de perfeição máxima ou tem claramente margem para aprofundar a melhoria dos serviços prestados aos munícipes?

Quando continuamos a verificar que em muitos pontos de Cascais se avolumam monstros à espera de ser recolhidos, os restos de jardins nos passeios, contentores a abarrotar, passeios com ervas que mais parecem jardins, sumidouros entupidos, é claro que, embora melhor que nos municípios circundantes, há muito caminho a fazer para tornar o serviço prestado melhor.

O princípio da melhoria contínua encerra um conceito de humildade na consciência de que há sempre maneira de melhorar a nossa performance.

Para os nossos autarcas de Cascais, humildade é uma palavra maldita!

Antes Carreiras e agora Piteira, preferem a soberba de ser melhor do que um morto qualquer do que lutar por ser cada vez melhor.

De que me serve ser melhor do que dois ou três outros se não continuar a desenvolver todos os esforços e atenção para ser sempre melhor?

Cascais pode ter todos os títulos que lhe conseguirem comprar, como agora a capital europeia da democracia, mas isso permite-nos considerar que é o local da europa mais transparente, com a gestão pública mais eficiente, com as melhores condições de vida dos seus munícipes, com as melhores empresas onde se pode trabalhar, com os melhores transportes públicos, com a melhor mobilidade? A candidatura que custou mais de uma centena de milhares de euros conseguiu o título, mas caro munícipe sente-se efetivamente a viver num local idílico de democracia aqui em Cascais?

Claro que não!

A luta, a competição, não tem que ser com os outros, tem que ser connosco!

Os nossos gestores políticos têm que urgentemente descer do pedestal em que se colocaram, e posicionarem-se ao nível onde os restantes munícipes vivem diariamente, perceber os múltiplos problemas que subsistem em Cascais e trabalhar soluções que os minimizem ou façam desaparecer.

Tenho a absoluta certeza que cada solução encontrada para um problema vivido pela comunidade será certamente muito melhor que vinte capitais europeias de uma idiotice qualquer!

Já chega de “faz de conta”!

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