CASCAIS – A MÁQUINA DE FAZER POLÍTICOS
A política nos anos 70 e oitenta
era uma coisa empolgante, entusiasmante.
As pessoas que participavam
ativamente na política tinham, na sua esmagadora maioria, uma efetiva e genuína
vontade de participar na discussão da coisa pública, da governação nacional e
local, numa perspetiva de ajudar a melhorar as condições de vida da população.
Havia uma preocupação e respeito pelos outros, pelas pessoas anónimas ou não,
que nos rodeavam.
O combustível da política e dos
políticos era, naqueles tempos, servir, servir os concidadãos, servir o país.
Com os anos noventa assistiu-se a
uma paulatina alteração deste status quo, com a invasão dos Partidos políticos
por tecnocratas que passaram a tratar a sua participação na vida política não
como um meio de servir os outros, mas antes como uma maneira de gerirem a
melhor forma de se perpetuarem nestas andanças, num esquema de portas
giratórias, em que a política passou a ser meio de garantir uma “pseudo vida
profissional” dentro da política.
Com o advento do novo século,
este esquema foi aprimorado, com uma rede de novos empregos gerados em empresas
e agências municipais que serviram para encontrar quem, através destes empregos
garantidos, perpetuassem dentro dos partidos os empregos no sistema político.
A máxima “eu garanto-te um
emprego tu garantes-me o meu emprego na política” passou a ser uma realidade
incontornável.
O PSD Cascais foi dos primeiros a
implementar tal sistema que durou até aos dias de hoje.
O último plenário do PSD a que
assisti antes de pedir a demissão do Partido em 2013, evidenciou-me essa triste
realidade – Das setenta e tal pessoas presentes no Plenário, mais de sessenta
eram funcionários da Câmara de Cascais ou de empresas municipais!
Quem, num cenário destes, quer
pôr em causa o seu emprego afrontando os detentores do poder em Cascais?
Hoje, o interesse público deixou
de ser motivo e passou a ser argumento.
A Câmara liderada por António
Capucho, (2002 – 2006) foi o último momento de democracia em Cascais.
A partir da saída de António
Capucho da CMC e com a ascensão de Carlos Carreiras à presidência, a máquina de
fazer políticos foi ligada e continua a produzi-los, com péssima qualidade, mas
com sucesso na ocupação de lugares de decisão.
Com as portas giratórias bem
oleadas, os lugares deixaram de ser ocupados pelos que aparentemente disponham
das melhores capacidades e passaram a ser ocupados pelo sistema.
Só assim se percebe a razão por
que a qualidade dos intervenientes políticos locais baixou a níveis
intoleráveis.
A prova dos nove pode ser tirada
pela análise dos CV destes eleitos.
Apreciem o CV de Nuno Piteira
Lopes, o novo Presidente da Câmara de Cascais, que desde 2002 é funcionário
municipal, ora como adjunto de vereador, ora como Vereador. Nos últimos 24 anos
limitou-se a “surfar as vontades partidárias” que têm apadrinhado a sua
manutenção na lista de “funcionários” municipais. Com sucesso.
Apreciem o CV do Vereador do CDS Pedro
Morais Soares. Depois de 1 mandato como vereador e 3 mandatos como Presidente
da Junta de Cascais agora trocou com Francisco Kreye para garantir mais quatro
anos de mandato… Nem o escândalo com o acordo com o Chega o levou a pestanejar.
Entre o vencimento e a dignidade exigível numa relação de coligação prevaleceu
o vencimento.
Nas outras Juntas de Freguesia, o
panorama não é igualmente animador.
A política precisa de gente com
vida, com mundo, que conheçam o mundo do trabalho e não de aparelhistas que se
limitam a perpetuar no poder quem lhe possa valer vantagens e manutenção dentro
do sistema.
E não se pense que a coligação
Viva Cascais no poder em Cascais é o único sinal do que acabo de afirmar.
O Partido Socialista quis fazer
parte da partilha de lugares, e o Chega, que se arroga de antissistema, está
deserto para integrar o sistema também, como ficou bem patente nos últimos
desenvolvimentos em Cascais.
O poder em Cascais apodreceu.
Aos Partidos será difícil
contrariar este estado de coisas, os Pelouros e os lugares falam sempre mais
alto.
Restam-nos os movimentos, os não
Partidos, que agreguem pessoas que estejam mais interessadas em servir do que
de se servirem.
Quando a maioria dos eleitores acordar
e tomar consciência do estado a que isto chegou talvez tenha chegado a hora.
Até lá, limitemo-nos a gozar Cascais agora agraciada com o título “Capital da
Democracia 2026”… O dinheiro compra tudo, ou quase tudo…
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