quarta-feira, 11 de abril de 2018

Cascais, a cegueira e a política!


Cascais anuncia no Fórum Nacional de Resíduos que terá lugar em Abril uma “revolução” na recolha de resíduos.

http://www.ambienteonline.pt/canal/detalhe/cascais

A grande novidade é afinal uma versão “made in Taiwan” do que foi testado com sucesso pela Tratolixo em 2006 e que por teimosia foi abandonado por pressão de Carlos Carreiras e Isaltino Morais.

Tentemos de forma resumida colocar o problema e as soluções plausíveis.

Há uma clara necessidade de resolver de forma autónoma os resíduos orgânicos (vulgarmente apelidados de restos de comida ou de forma mais técnica RUB - resíduos urbanos biodegradáveis). É um assunto que tem vindo a constar de metas estabelecidas pela comunidade europeia e que Portugal tem vindo a ignorar.

Com este objetivo, o desenho traçado na elaboração do Plano Estratégico de Resíduos de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra em 2003, de que me orgulho de ter sido um dos responsáveis pela elaboração, definiu uma estratégia para a recolha autónoma deste tipo de resíduos e a construção de uma Central de Digestão Anaeróbia para receber e tratar os RUB, obtendo como produtos finais um aditivo orgânico para a agricultura e a produção de energia elétrica.

Em 2006 foram realizados vários testes piloto, com recolha de RUB em contentorização colectiva (Cacém e Polima) e com recolha porta-a-porta (Matocheirinhos) com resultados muito promissores.

Mas em 2007, Carlos Carreiras liderou uma campanha contra a atividade desenvolvida pela Tratolixo colocando duas condições que viriam a ditar o fim do Plano Estratégico de Resíduos tal como estava a ser implementado: a exigência de que as recolhas seletivas fossem asseguradas pelas Câmaras e não pela Tratolixo e que as ações de sensibilização deixassem de ser executadas pela Tratolixo e passassem também a ser geridas pelas Câmaras.

O concurso público internacional para a construção da Central de Digestão Anaeróbia já tinha sido aberto, sendo a unidade prevista para trabalhar com RUB recolhidos seletivamente.

Sem recolha seletiva de RUB, porque Carreiras e companhia achava que era uma “modernice desnecessária”, foi necessário introduzir alterações no projeto da Central de Digestão Anaeróbia para passar a receber RSU indiferenciado que custaram ao erário público, ou seja aos munícipes destes 4 concelhos, a módica quantia de 10 milhões de euros e uma derrapagem de mais um ano na conclusão daquela unidade. Durante este ano há que juntar os custos de transporte e tratamento dos Resíduos que não foram tratados na CDA e foram transferidos para outras unidades…

Passados 12 anos, eis que voltam à carga com a necessidade de recolha seletiva de RUB.

Em contentores autónomos de grande capacidade?

Em recolha porta-a-porta?

Não! A nova estratégia é fazer a recolha em sacos de cor diferente mas no circuito dos RSU indiferenciados.

Que ideia mais peregrina!

Dizem os “experts” que a separação dos sacos de RUB do restante RSU indiferenciado será feita na Tratolixo.

Uma ideia destas só podia vir de alguém que não faz a mais pequena ideia do que são as condições de trabalho na receção dos RSU na Tratolixo.

Doze anos para conceber uma alternativa destas?

A recolha de RUB sem ser em contentorização autónoma está condenada ao fracasso.

Mas vale a pena discutir um pouco o que se vai pedir aos munícipes e a troco de quê.

A conta que todos os munícipes de Cascais pagam de resíduos está bem visível na conta da água. No entanto, como esse valor é calculado em função da água consumida, trate-se de um munícipe consciencioso, que separa as várias fileiras dos seus resíduos ou não tenha qualquer preocupação na separação na origem, o valor a pagar é o mesmo.

Como os recicláveis são valorizáveis e os rsu indiferenciados exigem tratamento, os custos respetivos não são iguais. Podemos pois afirmar que o munícipe consciencioso, que separa os seus resíduos, embora tenha mais trabalho, financia a não preocupação do munícipe que não separa.

Digamos que é “um prémio” que o município de Cascais atribui aos seus melhores munícipes…

Mas há mais. As Câmaras continuam a olhar para os seus munícipes com um certo desprezo que é inaceitável. As soluções encontradas têm sempre preocupações de tornar as tarefas mais fáceis para os serviços camarários do que para os munícipes que são quem pagam isto tudo!

Da contentorização porta-a-porta passou-se para a contentorização de 800 litros e depois para a contentorização enterrada com capacidades de 3 ou 5 m3. Em cada passo evolutivo a contentorização foi ficando mais longe do munícipe.

Quem separa tem menos oferta de contentorização para os resíduos separados do que quem não separa. Onde é que está a lógica?

O cumpridor é que é castigado?

Diz o velho ditado que não há pior cego do que aquele que não quer ver.
Em Cascais a cegueira parece ser regra…

(Publicado em Cascais 24 a 13 de Março de 2018)

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